Notícia

Discurso proferido pelo professor Efraim L. Reis na cerimônia de homenagem ao ex-aluno Etelvino Bechara


          Quero saudar nossa Reitora, Professora Nilda de Fátima Ferreira Soares, ex-aluna e primeira mulher a dirigir a UFV nestes 85 anos de nossa instituição, na pessoa da qual saúdo todos que compõem a mesa desta sessão solene. 

              Senhoras, Senhores, Colegas, Professor Etelvino Bechara.   

       Coube-me, por designação do Conselho Permanente da Ordem do Mérito do Ex-aluno da Universidade Federal de Viçosa, fazer a saudação ao nosso homenageado deste ano, o professor doutor Etelvino José Henriques Bechara, nesta Sessão Solene da 76ª. Reunião Anual do Ex-aluno.  

            Faço-a com muita honra e alegria, na convicção de que a Universidade Federal de Viçosa está concedendo esta homenagem a um intelectual de alta estirpe, a um homem público notável e um ser humano de grande valor. 

             Neste ano de 2011 no qual a Universidade Federal de Viçosa completa 85 anos, é também um ano muito significativo para a comunidade química mundial, pois a Assembléia Geral das Nações Unidas o proclamou como o Ano Internacional da Química, como proposta encaminhada pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC), com o patrocínio de 35 países. 

           A razão desta comemoração do Ano Internacional da Química neste ano de 2011 se deve ao fato de se comemorar o 100º aniversário do Prêmio Nobel em Química para Marie Sklodowska Curie, a madame Curie. 

             Este evento tem também como meta, promover em âmbito mundial, o conhecimento e a educação química em todos os níveis e uma reflexão sobre o papel da Química na criação de um mundo sustentável.  

          Desta forma, por coincidência, esta homenagem que hoje prestamos ao professor Etelvino Bechara, é para um químico, cuja iniciação nesta área do conhecimento se deu aqui em Viçosa na Universidade Rural do Estado de Minas Gerais (UREMG), hoje Universidade Federal de Viçosa. 

             Pretendo recuperar os traços principais da trajetória acadêmica do professor Etelvino, destacar algumas das suas contribuições intelectuais e evidenciar em que medida essas contribuições são relevantes para a nossa universidade. 

              Nascido e criado na magnífica Serra do Caparaó em Minas Gerais, teve seu interesse em química e biologia despertado por seus professores de ginásio, que ele sempre faz questão de citar em suas entrevistas, a senhora Ilza Campos Saad, que foi sua professora de Ciências, no primário, em Manhuaçú, MG, e o professor Márcio Moura Estevão, de Química, no curso técnico-agrícola, da Universidade Rural do Estado de Minas Gerais, a nossa UFV atual.  

          Mais tarde, mudou-se para São Paulo, onde foi trabalhar nos laboratórios de controle de qualidade de matéria-prima e produção das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. Lá conheceu Alexandre Dubson (ex-professor nas universidades de Moscou, Pequim e Roma), que o estimulou a aperfeiçoar-se como Técnico Químico. Um ano mais tarde alcançou o cargo de analista químico daquela empresa.

            O ingresso na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo ocorreu em 1965. E naquele mesmo ano, o professor Etelvino Bechara começou a lecionar química orgânica no cursinho do Grêmio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Em 1968, ao lado de outros professores, fundou o Equipe Vestibulares, que depois se tornou o conhecido Colégio Equipe de São Paulo, um ícone dos anos 70 por ser um centro de manifestações culturais e políticas. 

            Após a Licenciatura e o Bacharelado em Química na USP em 1968, fez o doutoramento em Bioquímica com o Professor Giuseppe Cilento em 1972, descrevendo um modelo químico para a síntese do ATP. Realizou estudos de pós-doutoramento no Departamento de Química da Universidade Johns Hopkins em 1974 e, atuou posteriormente, como pesquisador associado da Universidade de Harvard, sempre na linha de bioluminescência e quimioluminescência.   

          Atuou também como Cientista Visitante no Instituto de Química Fisiológica da Universidade de Düsseldorf. E como consultor visitante do Laboratório de Ciências Microbiológicas e Bioquímica da Universidade do Estado da Geórgia. 

        Em 1979, recebeu o título de Livre-Docente da USP. A partir de 1980, seu interesse estendeu-se à bioluminescência dos besouros denominados "tec-tecs" e "trenzinhos", com trabalhos de campo com estes insetos luminescentes no Parque Nacional das Emas em Goiás, e na Mata Atlântica.  

            Atualmente é professor colaborador sênior do Instituto de Química da USP e professor Titular da Universidade Federal de São Paulo, Campus de Diadema.

      Concomitantemente, desde os anos oitenta, dedicou-se também ao estudo de radicais livres derivados de oxigênio em sistemas biológicos. Investigou o envolvimento destas espécies químicas em doença associada à poluição do ar em Cubatão, no Estado de São Paulo, nas manifestações neuropsiquiátricas e no estresse causado pelo exercício físico estenuante. Todas estas pesquisas tiveram a participação de dezenas de pós-graduandos, graduandos, colegas brasileiros e estrangeiros. Suas contribuições nestas áreas levaram-no à posição de Professor Titular de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo em 1990.  

          Formou dezenas de doutores e mestres e publicou mais de 140 trabalhos científicos em revistas científicas, dentro dos temas da Quimioluminescência Orgânica, Bioluminescência e Estresse Oxidativo.  

         Foi também eleito Membro Titular da Oxygen Society em 1994, ramo americano da Sociedade Internacional de Pesquisas de Radicais Livres. Atuou como editor convidado de número especial da Revista Química Nova, na fase preparatória da ECO-92, dedicado à discussão das fronteiras da pesquisa em química ambiental e  de um número especial da revista Ciência e Cultura em 1995 sobre as pesquisas de radicais livres na América Latina.  

        Acrescente-se sua participação como fundador da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), sendo seu associado de número 3, tendo atuado efetivamente na consolidação desta sociedade, onde foi presidente de 1988 a 1990, e tesoureiro, secretário geral, vice-presidente em outras ocasiões.  É hoje o presidente de honra da nossa Sociedade Brasileira de Química.  

          É Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências; recebeu a Medalha Simão Mathias da Sociedade Brasileira de Química em 1997; o Prêmio da Associação Brasileira de Fabricantes de Tintas em 2000, o Prêmio Fritz Feigl do Conselho Regional de Química da IV Região em 2003, É bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq desde 1991. E em 2004 recebeu das mãos do Presidente Lula a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico. 

        Em certa oportunidade, em uma entrevista, perguntado quais seriam os assuntos, em que um Bioquímico, com forte formação em Química, poderia atuar de maneira altamente significativa, o professor Etelvino respondeu que apontaria os temas ligados: às Ciências Ambientais,  ao métodos de remediação químico-microbiológicos de água, solo e lixo industrial e doméstico; à Síntese Orgânica de fármacos e feromônios; e aos programas Proteoma/Metaboloma, para elucidar o fluxo de informações químicas e suas aplicações, visando principalmente às suas aplicações na Medicina, na Agricultura e na Bionanotecnologia.  E avançando  aconselharia qualquer graduando em Química e Bioquímica que pretenda continuar seus estudos de pós-graduação em Bioquímica, a não se descuidar de sua formação geral, separando um pouco de seu tempo para congressos, feiras tecnológicas, concertos, museus, jornais e literatura. O graduando tem de ser excelente em Química, mas também bem informado e um bom comunicador. Alienado, ele não convencerá ninguém, e, mais importante, não poderá realizar-se como um cidadão produtivo e feliz.  

           Permita-me, professor Etelvino, contar uma passagem que ocorreu esta semana, após a apresentação do trabalho de conclusão de curso de uma formanda em química, na qual presentes estavam os seus pais, disseram que voltariam a sua cidade ainda naquele dia, questionei qual cidade e eles responderam que eram de Manhuaçú. Aproveitei a oportunidade e comentei sobre esta homenagem que faríamos hoje a um manhuaçuence de coração. A mãe da aluna quis saber detalhes, para levar ao conhecimento de seus conterrâneos e ontem recebi desta senhora dezenas de e-mails de colegas de Vossa Senhoria, que peço permissão para citar uma destas mensagens: 

“Etelvino foi meu amigo de infância e adolescência, tenho uma foto, que não consegui localizar para enviar junto a esta mensagem, em que estamos eu, o Nivaldo Nunes, o Ricardo Xavier e Etelvino. Etelvino tem uma das mentes mais brilhantes que conheci, mas sua maior virtude é a fidelidade. Ele é um amigo sempre fiel. Com muita saudade, do amigo Walter Pinto.” 

        Quero concluir dizendo que as características do homem e do intelectual  Etelvino Bechara têm tudo a ver com uma universidade como a nossa; essas características são aquelas de não se submeter às dificuldades do caminho, opor-se a toda opressão e não se conformar com a vitória alcançada, avançando cada vez mais. Neste sentido o professor Etelvino é um belo símbolo dos ideais que forjaram a UFV e que devemos manter: a construção democrática da instituição com pluralismo de idéias, a negação do pensamento único e a superação constante do patamar que já alcançamos, pois não vencemos apenas com as nossas certezas. 

               Muitas de nossas vitórias decorrem de nossas dúvidas.

               Parabéns professor Etelvino. 


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